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A mostrar mensagens de abril, 2026

Abril é todos os dias

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    O 25 de Abril não é uma cerimónia. Não é o hastear da bandeira, não é uma flor na lapela, não é o Grândola Vila Morena tocada uma vez por ano para que tudo fique aparentemente igual.       O 25 de Abril, como diria José Mário Branco, foi um sonho lindo. Foi o momento em que um povo cansado de miséria, guerra, censura e medo, decidiu fazer da sua história, a história do país.       Foi o momento em que se tentou mudar a vida. Mudar a lógica dos poderes instalados, dar ao povo o que por direito sempre pertenceu ao povo. Na rua, nas fábricas, nos quartéis, o povo abriu a História à força sem precisar de balas para matar o regime.      E, por isso, é tão odiado o 25 de Abril por certas elites que mantém o poder. Fazem desta data, uma data simbólica. Como se fosse mais um dia, como tantos outros no calendário, em que se vai comemorar o teatro, como de facto vai acontecer no palácio de São Bento.    ...

Trabalhar não chega para morar

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     Uma das coisas que me despertou para a política e para a crítica ao Capitalismo, foi sem sombra de dúvidas, o facto de achar justo toda a gente ter direito a uma casa.      Aliás, se na altura da minha consciencialização a crise do capitalismo já era evidente, hoje, é-o muito mais e, uma das faces mais visíveis dessa crise sistémica é o agravamento do mercado na habitação, que impossibilita um número cada vez maior de trabalhadores de viverem numa casa digna.       Toda a gente deveria ter uma casa, não necessariamente uma casa de luxo, uma casa onde se diga que se pode viver. Com uma renda ou prestação que não consoma toda uma vida de trabalho. Coisa que, em Portugal, parece algo utópico.       Uma parte crescente do país vive entre a renda impossível, a prestação incomportável, o quarto arrendado, a casa partilhada com estranhos e a certeza amarga de que trabalhar já não chega para morar com dignidade, quando h...

Nenhuma guerra é nossa

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     Dizem-nos que as guerras são inevitáveis. Apresentam-nas, os que nunca as combatem mas que nos mandam para elas, como choques de civilizações, conflitos entre povos, ameaças externas, como fatalidades da História que temos de acatar e, pior, definhar por elas.       Mudam os cenários, mudam os nomes, mudam as bandeiras, mas a lógica é sempre a mesma. Os que decidem raramente são os que morrem, e os que morrem raramente retiram alguma coisa da guerra, se não os traumas de quem vivenciou o de que pior o ser humano já fez.      Olhe-se para os diferentes cenários de guerra à volta do mundo onde a destruição e miséria se tornaram linguagem permanente no quotidiano daqueles povos. Por detrás da retórica da segurança, da soberania, da defesa, da estabilidade internacional ou até da libertação e opressão, o que se esconde é a lógica animalesca dos impérios, da disputa do poder e dos interesses do capital, que usam os povos como carne de ca...

Podem leiloar o Bessa, não levam o Boavista

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     A última consequência do fundo do poço a que chegou o Boavista Futebol Clube foi a colocação do Estádio do Bessa e o Complexo Desportivo em Leilão eletrónico.      Para muitos dos leigos esta pode ser uma situação que os tenha tomado de surpresa. Mas para quem percebe minimamente da "bola", este destino já estava traçado há demasiado tempo.      Este  ritual final do sacrifício de uma instituição centenária, mais não é que, colocar ativos apreendidos pela massa insolvente, no mercado, para pagar aos credores.       Uns dirão que é uma bela oportunidade de negócio,  outros dirão que é só um número. No entanto,  este não é um processo de insolvência como tantos outros que correm termos nos Juízos de Comércio deste país.      Não o é,  porque a história centenária, a paixão de milhares de adeptos e o sacrifício de tantos atletas que diariamente dão a vida pelo clube, não pode ser  ...

Caminhos que resistem ao abandono

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     Ontem, como já vem sendo habitual nestes fins de semana primaveris, fiz um trilho por veredas, cumeadas e chãs. Desta vez, ladeado pelas majestosas Serra Amarela e a Serra do Gerês, parti à descoberta do Trilho do Castelo - PR2, em Terras de Bouro, percurso circular com início e fim no Cruzeiro do Monte, em Santa Isabel.      Como tantas vezes, parti sem expectativas. Tão só, com aquela de ficar com uma dor de pernas do acumular de quilómetros e desnível do terreno. Mas, na realidade, o caminhar por várias horas naquele silêncio que só a natureza tem a coragem de desafiar, despertou em mim sentimentos que não posso deixar de aclarar e que em muito superam qualquer fadiga acumulada.       Aqueles caminhos entre montanhas, pedras e memória, são daqueles sítios onde o território ainda fala, mesmo quando já quase ninguém o ouve. Por isso, dei por mim a pensar que não estava apenas perante um sítio onde tudo "se conjuga para que nad...

Tempos Modernos

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     Há coisas que deviam ser dadas como garantidas. E no entanto, não o são.      Ter médico, ter casa, ter acesso à educação. Não como exceção, não como conquista individual, mas como ponto de partida coletivo.      Hoje, o acesso ao essencial parece depender de uma combinação de sorte, resistência e tempo.      Tempo para esperar, tempo para pagar, tempo para tentar outra vez, numa vida que não tem tempo para esperar por aquilo que deveria ser certo.      Tempo que, na verdade, já não é nosso e essa é talvez a transformação mais silenciosa dos nossos tempos, que está intrinsecamente ligada com a degeneração do capitalismo.       Isto é, a forma como a vida foi sendo convertida em tempo de trabalho sem que nos tenhamos apercebido disso.       Trabalha-se mais, durante mais anos, para garantir menos. E aquilo que devia ser direito passa a ser algo que se compra, ou que se ...

Onde a vida acontece, tem de se decidir!

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Há um espectro, com maior clamor no interior,  que  atravessa o país de forma silenciosa, o de que se decide muito longe de onde se vive. E é verdade, com consequências catastróficas. Decide-se em gabinetes, com pessoas que não conhecem o território, em estruturas que não respondem diretamente a quem cá está, em organismos que exercem poder sem nunca terem sido escolhidos por ninguém. É o caso de entidades como as CCDRs, que influenciam decisões estruturais sobre o território sem terem uma legitimidade democrática direta.  Este afastamento não é neutro e tem consequências. Quando quem decide não responde perante quem é afetado, a decisão tende a afastar-se da realidade concreta e a beneficiar os pequenos círculos do poder. O território passa a ser gerido à distância, sem conhecimento da realidade. É por isso que a regionalização não é um detalhe institucional nem uma embirrice minha ou do PCP, mas antes, uma necessidade democrática. Não apenas para reorganizar o...

Vieira do Minho - Dois dias de presença para anos de ausência

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     Terras há onde o pouco às vezes é vitória e, em Vieira do Minho é sempre vitória.       Foram anunciados dois novos médicos para Centro de Saúde. Dois dias por semana, por tempo limitado. Uma presença breve para uma ausência longa e que não vai esbater o déficit de serviços de saúde à população que se tende a agravar.      E, ainda assim, sabe-se de onde veio esse pouco. Não caiu de cima, não nasceu da vontade súbita de quem decide. Foi conquistado cá em baixo, entre vozes que se juntaram, da Comissão de Utentes e do povo que recusou o silêncio e que se recusa a morrer sem assistência.      Foi o povo que fez caminho onde outros apenas assistiam. Mas esta não é a vitória que nos apura para a fase seguinte.       Numa terra envelhecida, onde a doença não espera e o tempo pesa mais, dois médicos a tempo parcial não são solução, são um penso rápido. Um penso rápido numa ferida aberta e que precisa de ...

Porque nasce o Luta Certa

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Há muito que o espaço público se tornou previsível, viciado e pouco incómodo. Não porque falte conflito na realidade, que é mais patente do que nunca, mas porque  foi sendo afastado de quem nele devia participar. A intervenção foi  substituída pela reação, a participação pela opinião adjetivada nas redes sociais, e o envolvimento real por um consumo passivo do que outros dizem e fazem. Criou-se um espaço onde tudo parece discutido, mas onde quase nada é verdadeiramente decidido por quem vive as consequências. A política foi sendo progressivamente esvaziada do seu conteúdo transformador, reduzida a uma lógica de gestão que aceita como inevitáveis as estruturas existentes.  Assim, o que poderia ser debate é muitas vezes encenado, e o que deveria ser conflito é neutralizado em nome de uma estabilidade que serve sempre os mesmos interesses. Vivemos numa realidade quase que paralela,  num exercício de gestão sem horizonte, onde o que interessa é manter e reforçar o poder ...