Nenhuma guerra é nossa

    Dizem-nos que as guerras são inevitáveis. Apresentam-nas, os que nunca as combatem mas que nos mandam para elas, como choques de civilizações, conflitos entre povos, ameaças externas, como fatalidades da História que temos de acatar e, pior, definhar por elas. 

    Mudam os cenários, mudam os nomes, mudam as bandeiras, mas a lógica é sempre a mesma. Os que decidem raramente são os que morrem, e os que morrem raramente retiram alguma coisa da guerra, se não os traumas de quem vivenciou o de que pior o ser humano já fez.

    Olhe-se para os diferentes cenários de guerra à volta do mundo onde a destruição e miséria se tornaram linguagem permanente no quotidiano daqueles povos. Por detrás da retórica da segurança, da soberania, da defesa, da estabilidade internacional ou até da libertação e opressão, o que se esconde é a lógica animalesca dos impérios, da disputa do poder e dos interesses do capital, que usam os povos como carne de canhão para os alimentar.

    O povo, ordeiro,  sem ser chamado a decidir sobre estas guerras, faz aquilo que os impérios lhe dizem que deve fazer. Ser a proteína animal das lutas dos que mandam nisto tudo, sem se questionar sobre a necessidade de tais conflitos. 

    Não foi o povo que desenhou fronteiras, nem foi o povo que impôs bloqueios, armou exércitos, financiou ocupações ou decidiu transformar territórios inteiros em tabuleiros de xadrez geopolítico. E, no entanto, é esse mesmo povo quem combate, quem morre, quem foge e quem enterra os seus. 

    Morre-se por bandeiras que nunca representaram a vida concreta de quem as leva, por Estados que, em tempo de paz, nada fizeram para garantir habitação, saúde, educação, trabalho digno ou igualdade de oportunidades. E, de repente, esses mesmos Estados pedem unidade, patriotismo, disciplina e sacrifício a quem sempre deixaram para trás.

    Estas palavras aplicam-se a todos os conflitos existentes. Sem exceções ou nuances. O povo que perfilha a paz tem de fazer a guerra dos ricos e, na melhor da hipóteses, fica mais pobre. 

    É aqui que entra também a hipocrisia do Ocidente. Não só pelas guerras de "libertação" que apoiou e sustentou ao longo das última décadas, mas acima de tudo, porque a condenação moral apenas funciona quando o invasor está fora do círculo dos aliados. 

    Quando são os outros a bombardear, ocupar, cercar, destruir e impor a sua vontade, multiplicam-se os eufemismos. Já não se fala em invasão, mas em intervenção, estabilização, missão internacional, guerra preventiva, exportação de democracia ou combate ao terrorismo.

    Mas mudar o nome não muda a realidade. Invadir continua a ser invadir, ocupar continua a ser ocupar e destruir países em nome da liberdade continua a ser destruição. O problema do Ocidente nunca foi a guerra. Foi, quase sempre, quem a faz.

    A paz, essa, tão necessária e urgente, não entra nesta equação. Aliás, se for promovida por algum país "hostil", dizem-nos que a temos de a combater com mais guerra para "libertar" aquele povo.

    Sabemos que os impérios precisam da guerra para se manterem neste sistema. Precisam dos recursos dos outros para promover o seu estilo de vida e para isso, precisam de inimigos permanentes, de zonas de influência, de mercados abertos pela força, de recursos controlados militarmente e de povos disciplinados pelo medo. E talvez o exemplo mais acabado disso, nas últimas décadas, sejam os Estados Unidos.

    Entram para “libertar” e deixam para trás ruína, caos, dependência e morte. Entram com a promessa de democracia e quando saem, deixam Estados arruinados, sociedades fragmentadas e povos condenados a pagar, durante gerações, o preço da intervenção alheia.

    É esta a grande mentira imperial ocidental. Apresentam-nos a barbárie como civilização e a pilhagem como libertação. 

    E, o mais grave, é que esta hipocrisia não serve apenas para justificar guerras externas. Serve também para moldar consciências cá dentro. Serve para fazer com que parte do próprio povo oprimido aceite como legítima a violência de uns e condene apenas a violência de outros, conforme o lado de onde sopra a propaganda.

    A guerra precisa dessa ilusão. De um povo mobilizado, dividido, emocionalmente refém da propaganda, incapaz de distinguir entre os seus interesses e os interesses de quem o governa. No fundo, precisa de transformar sofrimento em propaganda e obediência em virtude.

    Mas os povos não ganham com a guerra. Quem ganha são os complexos militares, os grupos económicos, as potências que alargam influência, os que transformam morte em negócio e destruição em reposicionamento estratégico.

    Nós, arraia-miúda, só ganhamos uma conta maior para pagar no final do mês. Com o aumento da energia, a subida dos preços bens essenciais, o agravamento do custo de vida, a precariedade e o desvio de recursos públicos para as guerras dos outros. 

    A normalização de um discurso de medo que serve para justificar mais despesa militar e menos investimento naquilo que realmente importa não pagam as contas no final do mês nem garantem o funcionamento dos serviços públicos.

    Falta dinheiro para salários, hospitais, escolas e habitação, mas nunca falta para armamento, logística militar e alianças estratégicas. E, no entanto, é sempre o povo trabalhador quem paga.

    Paga com impostos, com a perda de direitos, com a degradação das condições de vida. Mas também paga com a aceitação forçada de uma austeridade que, curiosamente, desaparece quando se trata de financiar guerras.

    Talvez um dos efeitos mais perversos do nosso tempo seja, precisamente, o de ver parte dos próprios oprimidos a defender aqueles que os esmagam. Ver trabalhadores a tomar como sua uma causa que, no fim, apenas serve os interesses dos que mandam, lucram e nunca irão morrer no campo de batalha.

    Mas a guerra deles não pode continuar a ser aceite como destino nosso. Lutar pela paz e recusar participar em guerras não é ingenuidade, é a única posição política que os povos de todo o mundo têm de tomar. 

    É recusar que os trabalhadores de cada país sejam empurrados para conflitos que não decidiram e dos quais nada retiram. É recusar que a solidariedade entre povos seja substituída pelo tiranismo, pela propaganda e pela manipulação permanente.

    A paz exige justiça, autodeterminação dos povos, fim das ocupações, fim da pilhagem e fim da lógica imperial que precisa sempre de novas frentes, novos inimigos e novos escombros.

    Só lutando por uma paz que assente na dignidade dos povos e no direito de viver sem ser carne para canhão dos interesses alheios é que mudaremos o rumo à História.

    Porque, no fim, as guerras deles nunca deixam de ser as guerras deles, a conta é que é sempre nossa.

    Cabe aos povos disputar o futuro e esse futuro começa na recusa da guerra.




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Podem leiloar o Bessa, não levam o Boavista

Tempos Modernos

Vieira do Minho - Dois dias de presença para anos de ausência