Tempos Modernos

    Há coisas que deviam ser dadas como garantidas. E no entanto, não o são.
    Ter médico, ter casa, ter acesso à educação. Não como exceção, não como conquista individual, mas como ponto de partida coletivo.
    Hoje, o acesso ao essencial parece depender de uma combinação de sorte, resistência e tempo.
    Tempo para esperar, tempo para pagar, tempo para tentar outra vez, numa vida que não tem tempo para esperar por aquilo que deveria ser certo.
    Tempo que, na verdade, já não é nosso e essa é talvez a transformação mais silenciosa dos nossos tempos, que está intrinsecamente ligada com a degeneração do capitalismo. 
    Isto é, a forma como a vida foi sendo convertida em tempo de trabalho sem que nos tenhamos apercebido disso. 
    Trabalha-se mais, durante mais anos, para garantir menos. E aquilo que devia ser direito passa a ser algo que se compra, ou que se perde.
    É aqui que, a chamada “servidão moderna” deixa de ser conceito e passa a ser prática quotidiana dos nossos dias
    Não há correntes visíveis, nem imposição direta. Há antes, uma dependência constante. Trabalhar para pagar a casa. Trabalhar para aceder à saúde. Trabalhar para garantir o que, em teoria, já devia estar garantido.
    Uma vida inteira ocupada a assegurar o mínimo. E quanto mais esse mínimo falha, mais tempo é necessário para o tentar alcançar.
    O resultado é um ciclo fechado, quanto mais se trabalha para viver, menos se vive fora do trabalho.
    Por isso, falar de direitos começa a parecer excessivo. Como se fosse pedir demais. Como se o normal fosse isto, pagar, esperar, aceitar. Mas não é falha. É escolha.
    A degradação dos serviços públicos, o enfraquecimento do Serviço Nacional de Saúde, a dificuldade crescente no acesso à habitação, a desigualdade no sistema educativo  que não acontecem por acaso nem por inevitabilidade são resultados de opções políticas concretas, que transferem para o indivíduo aquilo que devia ser garantido coletivamente.
    E é assim que os direitos se transformam em favores. Favores que dependem da condição económica, do contexto, do momento. Favores que se distribuem de forma desigual, como se fossem exceções e não garantias.
    Mas um direito que depende da sorte deixa de ser direito. E uma sociedade onde o essencial tem de ser conquistado individualmente é uma sociedade onde a liberdade é, no limite, apenas aparente.
    Porque quem vive preso ao tempo que precisa de vender para sobreviver não decide verdadeiramente sobre a sua vida, limita-se a ser servente.

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