Vieira do Minho - Dois dias de presença para anos de ausência

    Terras há onde o pouco às vezes é vitória e, em Vieira do Minho é sempre vitória. 

    Foram anunciados dois novos médicos para Centro de Saúde. Dois dias por semana, por tempo limitado. Uma presença breve para uma ausência longa e que não vai esbater o déficit de serviços de saúde à população que se tende a agravar.

    E, ainda assim, sabe-se de onde veio esse pouco. Não caiu de cima, não nasceu da vontade súbita de quem decide. Foi conquistado cá em baixo, entre vozes que se juntaram, da Comissão de Utentes e do povo que recusou o silêncio e que se recusa a morrer sem assistência.

    Foi o povo que fez caminho onde outros apenas assistiam. Mas esta não é a vitória que nos apura para a fase seguinte. 

    Numa terra envelhecida, onde a doença não espera e o tempo pesa mais, dois médicos a tempo parcial não são solução, são um penso rápido. Um penso rápido numa ferida aberta e que precisa de uma cirurgia profunda.

    E enquanto isso, pergunta-se, quem decide, onde está, o que fazem por nós? Do que sabemos, do poder central estão em Lisboa, a tentar acabar com o pouco que nos resta do SNS. Do poder local, estão mais interessados em jogar a nossa saúde em grupos privados, com a criação de um seguro de saúde, discricionário e irrazoável, que nunca suprirá aquilo que o SNS nos garante.

    Cabe à autarquia assumir, sem hesitações, uma posição firme e permanente de reivindicação junto do poder central, exigindo os meios e os profissionais que a população necessita.

    E, ao mesmo tempo, agir onde pode agir. Contratar profissionais de saúde, criar respostas de proximidade, apostar na saúde ao domicílio e reforçar uma lógica de medicina preventiva que evite que os problemas cheguem tarde demais.

    O município não pode, nem deve, substituir o Estado, mas não pode também ficar à espera dele. Tem de mitigar, de responder, de estar presente onde hoje há ausência.

    Há muito que o essencial deixou de ser tratado como prioridade. A saúde, que devia ser garantia,
vai sendo empurrada, adiada, reduzida a números e a promessas que se repetem sem nunca se cumprirem por inteiro.

    Diz-se que há resposta. Mas a resposta vem sempre tarde, sempre incompleta, sempre aquém. 

    E, no entanto, quando as pessoas se juntam, algo mexe. Não porque alguém ceda por vontade própria, mas porque já não há espaço para ignorar. Porque há momentos em que o silêncio deixa de ser possível.

    Foi assim agora. Será assim outra vez quando o povo o quiser.

    Porque, quando falta tudo, sobra o essencial, gente que não aceita, gente que insiste, gente que luta. E é dessa luta que nascem as pequenas vitórias. Mas também é dessa luta que tem de nascer algo maior.

    Porque o acesso à saúde não pode ser um remendo, tem de ser uma certeza.



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