Abril é todos os dias
O 25 de Abril não é uma cerimónia. Não é o hastear da bandeira, não é uma flor na lapela, não é o Grândola Vila Morena tocada uma vez por ano para que tudo fique aparentemente igual.
O 25 de Abril, como diria José Mário Branco, foi um sonho lindo. Foi o momento em que um povo cansado de miséria, guerra, censura e medo, decidiu fazer da sua história, a história do país.
Foi o momento em que se tentou mudar a vida. Mudar a lógica dos poderes instalados, dar ao povo o que por direito sempre pertenceu ao povo. Na rua, nas fábricas, nos quartéis, o povo abriu a História à força sem precisar de balas para matar o regime.
E, por isso, é tão odiado o 25 de Abril por certas elites que mantém o poder. Fazem desta data, uma data simbólica. Como se fosse mais um dia, como tantos outros no calendário, em que se vai comemorar o teatro, como de facto vai acontecer no palácio de São Bento.
Não convém ver o povo a decidir demais. Não convém ver a democracia aproximar-se da economia, da propriedade, do trabalho, da terra, da habitação. Não convém que Abril vá longe demais. A possibilidade de Abril se fazer cumprir é a possibilidade de o povo deixar de ser convocado apenas para servir e passar a mandar. E, isto, assusta as elites. Por isso, mais vale assinalar esta data de forma simbólica.
Desde cedo, muitas das conquistas abertas por Abril começaram a ser travadas, contidas ou revertidas. Abril foi sendo adiado e empurrado para uma normalização, onde a liberdade formal sobrevivia, mas a ambição transformadora era recusada, domesticada e desarmada.
As décadas de sucessivos governos de direita, e sim, nessa história também cabe o PS sempre governou contra Abril. Com mais ou menos verniz, todos ajudaram a privatizar, liberalizar, mercantilizar, reduzir direitos a custos e transformar o Estado social numa estrutura mínima, sempre pronta a recuar perante o capital.
É por isso que, hoje vemos direitos que parecíamos ter por garantidos a serem postos em causa como se fossem excessos. A saúde, a educação, os transportes, a habitação, os direitos laborais, tudo aquilo que Abril ajudou a consagrar como parte de uma vida digna, está hoje debaixo de ataque.
O caso mais premente, talvez seja o novo pacote laboral. Apresentam-no como modernização, como necessidade de adaptação da economia, como resposta a um mercado de trabalho em mudança. Mas por detrás dessa linguagem limpa e aparentemente neutra está o agravamento das condições laborais. Mais flexibilidade para quem manda, mais fragilidade para quem vive do salário.
Outro exemplo é o SNS. Este anseio dos filhos da revolução está a ser desmantelado e, isso não acontece num só dia, nem com uma declaração frontal. Faz-se por desinvestimento, por falta de profissionais, por empurrão para o privado, por degradação organizada até que nos digam que o público já não chega.
E, quando a maioria do Parlamento oscila entre a direita liberal, a direita conservadora e a extrema-direita, o que aí vem é mais pressão sobre salários, mais mercado na saúde, mais ataque à escola pública, mais privatizações, mais repressão social e mais corrosão constitucional. No fundo, mais um ataque a tudo o que a Revolução deu ao povo.
É aqui que Abril tem de ser lembrado, vivido e estimulado, para se fazer cumprir. Pelos direitos sociais, pelo papel do Estado, pelas garantias laborais, pela universalidade da saúde e da educação.
Caminhamos para um país cada vez mais desigual, mais obediente ao capital e mais tolerante com discursos que, em muitos pontos, já se aproximam perigosamente do regime anterior. Talvez ainda não seja o fascismo em forma plena. Mas em demasiados aspetos já se sente o seu cheiro. Na banalização do ódio, no desprezo pela Constituição, no ataque aos direitos sociais, na tentativa de convencer o povo de que liberdade e igualdade já foram longe de mais.
E a resposta não virá daqueles que odeiam Abril, nunca virá. Também, não virá de quem sempre viu a Revolução como erro. Nem virá de quem quer vender o país inteiro às fatias.
As pessoas precisam de respostas urgentes. Precisam de médico, de creches e universidades gratuitas, de transportes públicos acessíveis, de casa, de um salário digno e precisam de tempo para viver.
Essas respostas já não cabem em discursos de ocasião, nem em cerimónias de Estado, nem em homenagens vazias uma vez por ano. Mas também convém dizer uma coisa com clareza, não será apenas através de eleições burguesas, contaminadas pela fabricação permanente da opinião pública, que Abril será renovado.
Se dependesse só disso, já o teriam enterrado de vez. Abril só pode voltar a avançar pela força do povo organizado. Na rua, nas empresas, nos serviços, nos bairros. Na luta concreta que force o capital a recuar onde ele julga mandar sem resistência.
Eles têm medo porque sabem que somos mais e que, quando o povo se levanta, as inevitabilidades começam a cair.
Têm medo porque sabem que Abril não lhes pertence. E não basta um dia por ano para recordar o que fomos, o que somos e para onde queremos ir.
Precisamos de Abril sempre connosco, não como uma recordação nostálgica, mas como futuro.
25 de Abril, sempre !
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