Caminhos que resistem ao abandono
Ontem, como já vem sendo habitual nestes fins de semana primaveris, fiz um trilho por veredas, cumeadas e chãs. Desta vez, ladeado pelas majestosas Serra Amarela e a Serra do Gerês, parti à descoberta do Trilho do Castelo - PR2, em Terras de Bouro, percurso circular com início e fim no Cruzeiro do Monte, em Santa Isabel.
Como tantas vezes, parti sem expectativas. Tão só, com aquela de ficar com uma dor de pernas do acumular de quilómetros e desnível do terreno. Mas, na realidade, o caminhar por várias horas naquele silêncio que só a natureza tem a coragem de desafiar, despertou em mim sentimentos que não posso deixar de aclarar e que em muito superam qualquer fadiga acumulada.
Aqueles caminhos entre montanhas, pedras e memória, são daqueles sítios onde o território ainda fala, mesmo quando já quase ninguém o ouve. Por isso, dei por mim a pensar que não estava apenas perante um sítio onde tudo "se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição", como diria Miguel Torga, mas sim, perante um retrato fiel do Portugal profundo e das suas contradições.
Como tantas vezes, parti sem expectativas. Tão só, com aquela de ficar com uma dor de pernas do acumular de quilómetros e desnível do terreno. Mas, na realidade, o caminhar por várias horas naquele silêncio que só a natureza tem a coragem de desafiar, despertou em mim sentimentos que não posso deixar de aclarar e que em muito superam qualquer fadiga acumulada.
Aqueles caminhos entre montanhas, pedras e memória, são daqueles sítios onde o território ainda fala, mesmo quando já quase ninguém o ouve. Por isso, dei por mim a pensar que não estava apenas perante um sítio onde tudo "se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição", como diria Miguel Torga, mas sim, perante um retrato fiel do Portugal profundo e das suas contradições.
Isto porque, ao longo de horas de caminhada, cruzámo-nos com quatro pessoas, num território que é majestoso e nosso, mas que está ditado ao silêncio que não é apenas o da natureza, mas também, o silêncio de abandono.
E, no entanto, tudo ali mostra o contrário do que se sente quando lá estamos. Há marcas de trabalho em cada recanto, escritas durantes gerações. Muros erguidos à mão, caminhos abertos a esforço, moinhos que ainda contam a história de quem soube tirar do pouco o suficiente para viver, e gado que continua a percorrer a serra, com os seus pastores, como resistência viva a um modo de vida que não desapareceu por completo.
Ali não se nota o excesso, ou a pressa do tempo. Nota-se a adaptação, a inteligência prática da comunidade que foi fazendo da necessidade, solução, com muita fome e miséria à mistura. Mas, nota-se, acima de tudo, um modo de vida que se está a perder, e que leva consigo as memórias de quem o construiu, com suor, lágrimas e muita luta.
O que hoje resta dessa vivência convive com o desleixo e a apatia. Trilhos sem manutenção, com falta de sinalização em vários pontos, com a ausência de algo tão básico como pontos de água. Num percurso que se quer promovido, divulgado, integrado numa ideia de valorização do território.
O que se vê é potencial sem estratégia, beleza sem cuidado e território sem presença. E isto não é apenas sobre um trilho. É sobre o interior. Fala-se muito em fixar pessoas, em atrair turismo, em valorizar o território. Mas depois falta o essencial, manutenção, investimento e continuidade.
Sem isso, tudo o resto é discurso, e o resultado está à vista. Caminhos vazios, terras que foram vivas e que hoje sobrevivem mais pela memória do que pela prática.
Ainda assim, há algo que resiste. Resiste na pedra, nos moinhos, no gado e nos poucos residentes que ainda lá ficam. E, ironicamente, até nos que vêm de fora e reconhecem valor onde nós deixámos de olhar. Pois, das parcas vezes que passo por alguém nestes trilhos, geralmente, são estrangeiros que sabem daquilo que falo.
Talvez o problema não seja falta de potencial, mas antes, falta de decisão. Porque o território não precisa de ser inventado. Precisa de ser cuidado e potenciado e isso, ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer, não acontece sozinho nem vai lá com posts de redes sociais.
Assim, a conclusão a que chego é a de que o território não precisa de ser descoberto, mas sim, precisa de deixar de ser abandonado.
E, no entanto, tudo ali mostra o contrário do que se sente quando lá estamos. Há marcas de trabalho em cada recanto, escritas durantes gerações. Muros erguidos à mão, caminhos abertos a esforço, moinhos que ainda contam a história de quem soube tirar do pouco o suficiente para viver, e gado que continua a percorrer a serra, com os seus pastores, como resistência viva a um modo de vida que não desapareceu por completo.
Ali não se nota o excesso, ou a pressa do tempo. Nota-se a adaptação, a inteligência prática da comunidade que foi fazendo da necessidade, solução, com muita fome e miséria à mistura. Mas, nota-se, acima de tudo, um modo de vida que se está a perder, e que leva consigo as memórias de quem o construiu, com suor, lágrimas e muita luta.
O que hoje resta dessa vivência convive com o desleixo e a apatia. Trilhos sem manutenção, com falta de sinalização em vários pontos, com a ausência de algo tão básico como pontos de água. Num percurso que se quer promovido, divulgado, integrado numa ideia de valorização do território.
O que se vê é potencial sem estratégia, beleza sem cuidado e território sem presença. E isto não é apenas sobre um trilho. É sobre o interior. Fala-se muito em fixar pessoas, em atrair turismo, em valorizar o território. Mas depois falta o essencial, manutenção, investimento e continuidade.
Sem isso, tudo o resto é discurso, e o resultado está à vista. Caminhos vazios, terras que foram vivas e que hoje sobrevivem mais pela memória do que pela prática.
Ainda assim, há algo que resiste. Resiste na pedra, nos moinhos, no gado e nos poucos residentes que ainda lá ficam. E, ironicamente, até nos que vêm de fora e reconhecem valor onde nós deixámos de olhar. Pois, das parcas vezes que passo por alguém nestes trilhos, geralmente, são estrangeiros que sabem daquilo que falo.
Talvez o problema não seja falta de potencial, mas antes, falta de decisão. Porque o território não precisa de ser inventado. Precisa de ser cuidado e potenciado e isso, ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer, não acontece sozinho nem vai lá com posts de redes sociais.
Assim, a conclusão a que chego é a de que o território não precisa de ser descoberto, mas sim, precisa de deixar de ser abandonado.
Comentários
Enviar um comentário