Podem leiloar o Bessa, não levam o Boavista

    A última consequência do fundo do poço a que chegou o Boavista Futebol Clube foi a colocação do Estádio do Bessa e o Complexo Desportivo em Leilão eletrónico.

    Para muitos dos leigos esta pode ser uma situação que os tenha tomado de surpresa. Mas para quem percebe minimamente da "bola", este destino já estava traçado há demasiado tempo.

    Este  ritual final do sacrifício de uma instituição centenária, mais não é que, colocar ativos apreendidos pela massa insolvente, no mercado, para pagar aos credores. 

    Uns dirão que é uma bela oportunidade de negócio,  outros dirão que é só um número. No entanto,  este não é um processo de insolvência como tantos outros que correm termos nos Juízos de Comércio deste país.

    Não o é,  porque a história centenária, a paixão de milhares de adeptos e o sacrifício de tantos atletas que diariamente dão a vida pelo clube, não pode ser  tratada como património liquidável. 

    É um clube histórico reduzido a valor de mercado. E é, também, o retrato de um futebol que deixou de pertencer a quem o faz, apoia e lhe garante o futuro, o povo. 

    Comecei por criar a admiração pelo Boavista Futebol Clube em criança, ainda, quando foi campeão, de forma tímida e envergonhada, no meio de tantos "estarolas". Depois disso, seguiram-se anos europeus, nas noites em que uma equipa fora do circuito habitual se metia entre gigantes e os obrigava a olhar para cima. 

    Lembro-me dessas equipas, de Sanchez, Ricardo, Petit, Litos, João Pinto e tantos outros, das camisolas "esquisitas" do xadrez que parecia deslocado mas que acabou por se tornar identidade. Lembro-me da meia-final contra o Celtic FC, de acreditar que era possível até o Larsson gelar um Bessa que parecia em ebulição a sonhar com uma final "impossível". 

    O Boavista não era só um clube. Era uma exceção, e, por isso mesmo, era incómodo. Durante algum tempo, mostrou que era possível furar o bloqueio de um futebol dominado pelos mesmos de sempre. Que era possível competir sem abdicar da identidade, sem se tornar cópia.  

    E, foi aí que me comecei a identificar como boavisteiro. De peito cheio, com orgulho de quem sempre ousou enfrentar os "grandes" de frente. 

    Mas as exceções, neste sistema, raramente são toleradas durante muito tempo. Os custos de querer ser grande, por ter construído o estádio sem ajudas estatais e os custos por ser grande para os gigantes, fizeram deste símbolo, ao longo dos últimos anos, um barco à deriva em alto mar. 

    O regresso à primeira liga depois do "apito dourado" não deixava dúvidas, que o que agora se está a verificar era só uma questão de temporalidade. As dívidas acumulavam-se e o ativo, esse, nem vê-lo. 

    Hoje, o Boavista não desce apenas de divisão, cai para um nível que poucos imaginariam há anos. É declarado insolvente, vê a sua direção afastada no âmbito desse processo. E assiste à inevitabilidade de perder o seu próprio estádio, colocado em leilão como se fosse apenas mais um bem numa lista.

    Não é um acidente. É um processo que acompanha a transformação do futebol num espaço cada vez mais dominado por lógicas financeiras, onde os clubes deixam de ser associações desportivas para passarem a ser ativos geridos por empresários que nunca tocaram numa bola ou foram ao estádio apoiar o seu clube .

    Quando o controlo deixa de estar nas mãos de quem vive o clube e passa a estar nas mãos de quem o gere como investimento, o risco deixa de ser apenas perder jogos e passa a ser perder tudo.

    Quando um estádio vai a leilão, não está apenas em causa um imóvel. Está em causa um lugar de memória, um ponto de encontro, um espaço onde gerações se reconheceram. E, no entanto, isso passa a ter um valor de mercado.

    O que está a acontecer ao Boavista não é único, é apenas mais sentido porque dói mais. É um aviso para todos os clubes que vivem fora do centro do poder, sobretudo, para aqueles que ainda representam uma comunidade, uma história, uma identidade.

    Porque quando o futebol deixa de ser popular, deixa de ser de quem o vive. E quando deixa de ser de quem o vive, passa a poder desaparecer como qualquer outro negócio falhado.

    O Boavista não foi perfeito, nem nenhum clube o é, mas o que hoje se vê não é apenas o fim de um ciclo de um histórico. É o resultado de um caminho onde o futebol foi sendo afastado das pessoas, transformado em produto, gerido como ativo e, quando falha, descartado.

    E talvez seja isso que mais custa ver. Não é só a descida, não é só a insolvência, não é só o leilão. É, acima de tudo, a sensação de que aquilo que era nosso pode, afinal, deixar de o ser.

    Mas há coisas que, mesmo quando deixam de ser nossas, nunca deixam de nos pertencer. O Boavista é uma delas.




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